quarta-feira, 8 de julho de 2009
Foto acima: Ivo Sotn, jovem escritor brasileiro, vítima da PM brasileira.
"Estas são as imagens da monstruosidade institucional que reina no Brasil, um país empenhado em humilhar, torturar e destruir vidas... Adolf Hitler e seus fiéis seguidores devem estar indignados no inferno, por terem sido suplantados em bestialidade e crueldade por um povo não ariano... Somos um campo de trabalhos forçados e extermínio com 500 anos de história... uma Auschwitz tropical, sempre pronta para expelir de seus hediondos fornos crematórios espessas nuvens de fumaça e sonhos..."
"Estas são as imagens da monstruosidade institucional que reina no Brasil, um país empenhado em humilhar, torturar e destruir vidas... Adolf Hitler e seus fiéis seguidores devem estar indignados no inferno, por terem sido suplantados em bestialidade e crueldade por um povo não ariano... Somos um campo de trabalhos forçados e extermínio com 500 anos de história... uma Auschwitz tropical, sempre pronta para expelir de seus hediondos fornos crematórios espessas nuvens de fumaça e sonhos..."
Recordações da Terra dos Mortos
Um Sonho Ruim
"Nem homem nem nação podem existir sem uma idéia sublime."
Fiódor Mikhailovich Dostoiévski.
"A verdade é que, apesar das ilusões criadas pelo nosso Ministério de Propaganda, Bestialização e Cultura, difundidas de maneira sistemática e agressiva pela nossa mídia, nós, brasileiros, vivemos sob a luz funesta do mesmo sol que banhava os campos de Auschwitz. Idolatramos a nossa santíssima trindade (Carnaval, Futebol e TV) em meio as agonias das vítimas de um Holocausto que perdura há 500 anos. A cada dia, sentimos na pele a brutalidade das lâminas dilacerantes movidas pela mesma engrenagem jurídica criada pelo nazismo para mutilar os judeus em sua cidadania. A diferença é que as leis racistas promulgadas em Nuremberg no nefasto ano de 1935 constituíam um código explícito, fundamentado pelos juristas nazistas no absurdo. Já as nossas leis bestiais se encontram expressas num código implícito, paradoxalmente alicerçado numa Constituição que exalta os direitos humanos. Olhando através da história, temo pelo nosso futuro. A história já nos ensinou o quanto políticos covardes e criminosos, como os que temos aqui, são hábeis quando se trata de encurtar a distância entre uma violação civil e uma câmara de gás. Pobre Brasil brasileiro!!! Procurais a saída, enquanto o Ocidente não se enegrece!!!..." Ivo Sotn.
Um dia, tive um sonho ruim... Sonhei que havia cometido um crime terrível.
Sonhei que havia acordado de manhã cedinho, depois de uma noite entrecortada por insônia e pesadelos, e fiquei quieto na cama, com a face sobre o travesseiro, a fitar a rigidez da parede. De meus olhos, saíam lágrimas desoladas. Neste sonho, minha sobrinha Evelyn, uma princesinha com 3 aninhos de idade, estava deitada sobre os lençóis brancos de seu berço. Eles estavam ensopados de sangue... Enquanto pequenas lágrimas de sangue, diminutas e quase tão imperceptíveis quanto o orvalho, brotavam de seus olhos, sua gengiva e nariz sangravam abundantemente. O denso suor que escorria pelo seu rosto, por entre microvalas formadas a cada contração de sua face pueril às aguilhoadas da agonia, se misturavam com as lágrimas de sangue antes mesmo de caírem no lençol. Da sala de estar, eu podia ouvir os gritos dolorosos de Sandra, sua jovem mãe, sendo consolada por pessoas que talvez fossem nossos familiares. Era distinguível também o lamento de Carmen, sua jovem avó, que, no entanto, parecia dissimular certa força e confiança - que não existiam.
Instintivamente eu percebi que algo sob os lençóis ensanguentados de nossa princesinha a estava mortificando. Me aproximei do berço e, com minhas próprias mãos, comecei a rasgar os lençóis sujos que envolviam o seu corpinho frágil e ensanguentado, o que os tornava aderentes e escorregadios a um só tempo. A muito custo, a livrei de todos aqueles lençóis e descobri o que tanto a torturava: seu tórax estava envolvido por três voltas de um arame farpado que parecia estar ali como por encanto... Quanto mais ela tentava respirar, mais as garras de metal penetravam em sua carne. Desesperado, cortei minhas próprias mãos nas farpas afiadas do arame, na tentativa desesperada de livrá-la daquele mal. Meu sangue e meu desespero se amalgamaram com o sangue e o desespero de minha princesinha. Fechei os olhos e desejei com toda a força, fé e sinceridade a sua cura. Quando os abri, ela estava em meus braços, envolta num novo lençol branco levemente manchado de sangue, mas o lugar já não era o mesmo. Estávamos parados diante dum imenso prédio de vidro transparente, de modo que eu conseguia ver cada detalhe do tipo de atividade que era realizada ali. Era um belo hospital. Foi um sonho tão real, que até hoje, quando fecho os olhos no silêncio escuro da noite, posso sentir os ferimentos das farpas que a oprimiam, rasgando as carnes de meu peito, de meus braços, extenuados pelo desespero, pelo cansaço.
Este soberbo colosso de vidro transparente era o conceituado hospital Sírio-Libanês, de São Paulo, uma das maiores referências mundiais em tratamento oncológico. Nele, as pessoas ricas conseguem a cura. Lá, o câncer não tem muitas chances. Em meu íntimo, eu sabia disso. Quando estive em São Paulo, morei na rua Peixoto Gomide, a poucos metros das ruas Barata Ribeiro e Adma Jafet. De minha rua, eu podia ver o belo prédio do Sírio-Libanês, em sua imponência arquitetônica. Artistas e políticos e empresários entravam e saíam de lá quase sempre. Para os porteiros e guardadores de carro, era uma grande festa observar o tráfego de famosos por aquelas redondezas. Lá, os poderosos matavam ou anulavam o câncer por anos, e continuavam as suas vidas...
Mesmo quando ainda me encontrava prisioneiro daquele sonho ruim, daquele pesadelo, descobri o significado daquele arame farpado.
Lembrei-me da vez em que fui sequestrado, roubado e covardemente torturado por policiais militares, após mandar pra lona, com um belo cruzado de direita no queixo, o policial que havia me dado um tapa no rosto, numa destas rotineiras abordagens criminosas de nossa polícia covarde e corrupta. Eles me algemaram, puseram um saco preto em minha cabeça e me conduziram para um lugar ermo, onde amarraram um arame farpado em meu tórax, com o intuito covarde de dificulta-me a respiração. Toda vez em que eu tentava respirar profundamente, as farpas penetravam em minhas carnes, tornando o ato de respirar insuportável. Durante mais ou menos 40, 50 minutos, eles me queimaram com facas e cigarros. Foram os minutos mais longos de minha vida. Me roubaram uma obra de arte, em que eu havia investido um dinheiro arduamente conquistado, após noites em claro, corrigindo, de maneira intuitiva, as imperfeições estruturais de uma obra ficcional de uma cliente italiana. Me levaram ainda 1200 euros, alguns pertences e o principal: a minha oportunidade de estudar na Europa, por meio de uma bolsa de estudos que ganhei, através de meus méritos literários. Ou seja: eles me roubaram a oportunidade de dar uma vida melhor a minha família. Um mês após a covarde tortura seguida de roubo, descobrimos que Evelyn estava com leucemia. Eles tiraram de mim a oportunidade de dar um tratamento digno a minha princesinha.
Então, aquele arame farpado que tão cruelmente dilacerava o corpinho de minha princesinha significava leucemia, tortura, injustiça, abandono. Foi aquela uma forma metafórica que meu inconsciente havia encontrado para expressar, medir a dor que oprimia o nosso bebê.
Mantendo o corpinho de Evelyn junto ao meu com o braço esquerdo, com o direito comecei a socar a parede de vidro transparente do hospital, desesperada e alucinadamente. Mesmo em minha alucinação onírica, era possível perceber que minha tarefa era quase impossível, pois o vidro, apesar de transparente, era blindado, intransponível. Estas palavras soavam como aguilhoadas em minha mente. Através da limpidez daquele vidro, eu podia ver médicos com seus semblantes ponderados e imponentes, movendo-se pelos corredores labinríticos do hospital, envergando seus jalecos impecavelmente brancos, imaculados, contrastando apenas com o escuro do estetoscópio que traziam a tiracolo. Eles conversavam e se dirigiam para sofisticados quartos individuais, onde pacientes importantes repousavam tranquilamente em leitos limpos e aconchegantes.
Em meu desespero, eu socava com toda a minha força aquele maldito vidro, mas ele sequer arranhava. Eu gritava, pedia socorro, agitava meu punho ferido no ar, mas estávamos invisíveis, eu e meu neném. É incrível como as coisas acontecem nos sonhos. Num momento, estávamos completamente a sós, mas de uma hora para outra, centenas de doentes com seus acompanhantes, nas mesmas lamentáveis condições que as nossas, apareceram ao nosso redor, do nada. Éramos todos negros ou mestiços, maltrapilhos e sujos. Brasileiramente subumanos. Insígnias bordadas em pedaços de couro com a estrela amarela de Davi haviam sido costuradas na altura de nossos peitos, só que na carne. Os pijamas listrados que cobriam nossos corpos subnutridos tinham as cores da moda vigente: o verde e o amarelo de nosso amado Brasil. Policiais envergando fardas da Gestapo, SS e policias Civil e Militar brasileira nos empurravam com violência e desprezo para o interior de vagões de um trem superlotado, com o auxílio de monstruosos cães de três cabeças, tão horrendos e bestiais quanto o cérbero que Dante concebeu para guardar os seus condenados infernais. Estas feras malignas dilaceravam impiedosamente cada doente ou acompanhante que caia de fadiga, para a alegria dos policiais, muitos dos quais os fustigavam com as pontas dos seus fuzís toda vez que deixávamos alguma das peças que compunham um kit injurioso que nos obrigavam a carregar por pura zombaria, composto por uma bola de futebol, um pandeiro verde-amarelo, uma bandeira brasileira e um espesso livro, velho e enlameado, no qual se encontravam os cânones de nossa Constituição, misturados aos das leis de Nuremberg. Em minha mente perturbada, uma palavra soou metálica, terrificante: Auschwitz. Um pavor inenarrável percorreu cada fibra de meu corpo.
Desesperado, com minha pequena nos braços, eu sai empurrando policiais, doentes, acompanhantes e chutando o dorso dos cães assassinos que se antepunham à nossa frente.
Em minha fuga, eu acabara invadindo uma clínica medica, num prédio bem menor e menos garboso que o do hospital blindado. Lá, eu atacava um segurança e o desarmava, com minhas próprias mãos. Colocava Evelyn numa maca e nos trancávamos num banheiro, fazendo refém uma jovem enfermeira. Ela gritava desesperada, pedindo para que eu não a machucasse. Uma parte de mim queria imediatamente libertá-la, desculpando-se por tamanha atrocidade, mas a outra, relutante, dizia que apenas através daquilo eu poderia conseguir a cura para a criança que eu tinha agonizante nos meus braços. Eu sabia que não sairia dali vivo, mas pelo menos daria uma chance de cura para o nosso bebê. Lá fora, minha vida pertencia aos criminosos covardes do Reich brasileiro desde o dia em que fui sequestrado, roubado e covardemente torturado por policiais militares. Para minha família continuar vivendo, para Evelyn continuar sonhando com a possibilidade de uma vida sem sofrimento, sem dor, eu tinha que morrer... E, como um homem sem alternativas, tomei para mim o meu cálice. Não havia como passar adiante. Carregando uma cruz pesada de mais, subi um morro ígreme de mais...
De lugar nenhum, Ania, a mulher a quem mais amei nesta vida e que também havia padecido os horrores da leucemia, falecendo pouco mais de um ano após o diagnóstico, aos 19 anos de idade, apareceu com um cobertor, com o qual enrolava a mim e a minha pequena, livrando-nos do frio. Com o auxílio de seu delicado dedo polegar, ela secou as lágrimas de sangue que corriam pelo meu rosto. Aquecida em meus braços pelo cobertor trazido por um anjo enviado pelos céus, Evelyn unia suas mãozinhas pueris e começava a balbuciar uma prece... Uma das coisas que mais me mortificava era ver Evelyn, um bebê com apenas 2 anos de idade, unindo suas mãozinhas para implorar a Deus por uma cura que nunca viria...
De uma hora para outra, eu estava com meu bebê, nos braços, num prédio escuro, com apenas uma porta iluminada, ao fim de um longo corredor. Eu segurava minha pequena nos braços, apesar do cansaço e da desolação. O lugar iluminado se tratava de uma imensa e luxuosa sala de reuniões. Havia uma gigantesca mesa retangular postada bem no centro desta sala, tão comprida que os homens e mulheres que se encontravam sentados na extremidade oposta precisavam gritar, a plenos pulmões, para serem ouvidos por seus oponentes. Esta mesa era ocupada, em toda a sua extensão, por políticos importantes e soberbos, de todas as partes do mundo, quase sempre escoltados por suas esposas afetadas e sorridentes. Eles comiam, sorriam, bebiam champagne e vinhos caros. A mesa era tão grande, que dançarinas, dançarinos, cantoras e cantores brasileiros de Tum-tum-tum-tá-tá-tá (este ritmo ludico-sensual-filosófico nascido, fortalecido e apregoado na terrinha), acompanhados por uma magnífica e altiva banda de percussão, sambavam rebolavam e cantavam, exibindo suas belas formas aos glutões por entre as travessas de porcos, peixes, perus, pernis assados, bandejas enfeitadas por frutas exóticas, barris de chop e tigelas de ponche. As vestes destes fabulosos artistas do barulho e do movimento eram tão sensualmente peculiares, que, a cada saracoteio, se podia notar por baixo de saiotes e camisas de abadás quase invisíveis, os orifícis por onde, de ordinário, os mamíferos costumam expeliam os seus excrementos. Para a alegria da assembléia, muitos destes artistas rebolavam ensandecidamente sobre cada garrafa com que cruzavam ao longo do delicioso percurso sobre a gigantesca mesa do festim: eles viravam de costas para os convivas, colocavam as mãos nos joelhos e subiam e desciam sobre as bocas das garrafas, simulando que se deixariam sodomizar pelas mesmas. Sentados no chão, aos pés das cadeiras ocupadas por políticos militares, vi alguns repórteres, apresentadoras e apresentadores da TV baiana, mais algumas dezenas dos melhores jornalistas de nosso Brasil, tão comportados quanto cães à espera das migalhas lançadas por seus donos. Muitos deles chegavam mesmo a roçar as cabeças entre as pernas dos convivas, em sinal incontestável de submissão canina. Eles só ousavam sair desta posição quando algum dos convidados deixava, por negligência ou embriaguez, cair no chão ossos de peru ou espinhas de peixe, os quais eram encarniçadamente disputados por sujeitos vestidos de togas e alguns ilustres representantes de nosso Congresso Nacional. Uma fúria inexprimível se apossou de mim, no momento em que passei a distinguir as fisionomias daqueles torpes convivas. Na cabeceira da mesa, envergando seu uniforme militar, estava sentado ninguém menos que Adolf Hitler, secundado por sua senhora, Eva Braun. Logo ao lado desta ilustre senhora, postavam-se os senhores Alfred Rosemberg, Joachin von Ribbentrop, G.W. Bush, Toni Blair e Ariel Sharon. Ao lado deste último, G.W. Bush pai dialogava, sorridente, com Saddam Hussein. Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Antônio Carlos Magalhães, José Sarney, Lula, Fernando Henrique Cardoso, Collor de Mello, Fritz Sauckel, Hermann Goring, Heinrich Himmler, Artur Leibhenschel, Richard Baer, Rudolf Ross e Ruldof Hess fumavam charutos cubanos e gracejavam entre si, enquanto se entretinham com o jogo de cartas. Postado de pé, logo atrás do sr. Hibbentrop, com ar embirrado, Josep Stalin parecia desprezar o elevado números de cavalheiros alemães e brasileiros no festim. Queixava-se disso com seu escudeiro Molotov, que também parecia esnobar a superioridade numérica dos arianos. Do outro lado da mesa, Roberto Marinho travava discussões acaloradas com Josef Goebbels acerca da mídia moderna. Quase colados a esses cavalheiros, compartilhando do mesmo entusiasmo, embora explorando uma temática condizente com suas ocupações, os responsáveis pala suspenção do contrato Hospital Português-SESAB, o dr. Jorge Solla, secretário de saúde da Bahia, o dr. Eraldo Salustiano de Moura, coordenador da Central Baiana de Transplantes, o dr Marco Aurélio Salvino, coordenador do Centro de Transplante de Medula Óssea da Bahia, escudado pelo ministro da saúde, Humberto Costa, discutiam com os drs. arianos Josef Mengele, Hilario Hubrichzeinen, Carl Clauberg, Eduard Wirths e August Hirt sobre as novas diretrizes para a saúde internacional. Ao lado do senhor Hess, os maiores porcos de nossa história: os militares Castelo Branco, Médicci, Geisel e Figueiredo. Benito Mussolini, conversava com seus amigos, compatriotas e partidários do fascismo, o rei Vítor Emanuel III e o santo papa Pio XI. Sob a santa benção do papa, Adolf Eichmann e nosso governador Wagner assinavam, felizes e imponentes, sentenças desastrosas para a humanidade: o primeiro, a autorização para o transporte da primeira leva de prisioneiros para Auschwitz, o segundo, a suspenção do contrato do governo do estado da Bahia com o Hospital Português, única instituição no estado habilitada a realizar transplantes de medula óssea, e, consequentemente, única oportunidade para os baianos segregados pela miséria de continuar sonhando com a cura dos cânceres passíveis de transplante de medula. Após entregar a caneta ao doutor Eichmann, Jaques Wagner o abraçou calorosamente, e todos os convivas estouraram champanhes e brindaram às perspectivas promissivas que se esboçavam para seus respectivos partidos. Ao meu lado, como que surgido dum mundo encantado, um triste homem sem rosto (Eu o conhecia apenas de nome e fama, nunca tinha visto o seu rosto impresso nos jornais. Meses antes de ser preso, eu havia sido avisado, por fontes palacianas, das pretensões assassinas de nossos governantes em relação a anulação do contrato, bem como da indignação do Dr. Pallotta com aquela brutalidade bestial), trajando seu jaleco de doutor, lamentava aqueles acontecimentos. Seu nome era Ronald Pallotta, sua função: coordenar do único centro de transplante de medula óssea da Bahia. Chorando muito, ele tirou do interior de seu jaleco dois desmesurados machados, presenteando-me com um deles. Nos olhamos cara a cara, como homens de verdade costumam fazer, e, apesar da informidade de seu rosto, vi olhos chamejantes, prontos para a guerra. Da mesma maneira fantástica, apareceram oito novas figuras, armadas de armas igualmente primitivas, mas cheias da coragem e honra que as caracterizaram em vida, para engrossar a nossa hoste: o valente judeu responsável pelo levante do Gueto de Varsóvia, Mordechai Anielewicz, o nobre guerreiro argentino Ernesto Guevara, inimigo contumaz da opressão e os corajosos irmãos Bielski, responsáveis pela salvação da vida de centenas de judeus durante o reinado bestial do nazismo. Completavam o time mais quatro ilustres figuras da história da humanidade: o nobre negro alagoano Zumbi dos Palmares, odiado pela elite brasileira por ser responsável pela defesa de mais de 30 mil ex-escravos e aniquilador de inúmeras expedições militares assassinas, o não menos ilustre João Cândido Felisberto, cognominado o Almirante Negro, líder do levante que infligiu vergonhosa derrota à corrupta e desumana república brasileira de 1910, e o igualmente ilustre negro norte-americano Martin Luther King, grande defensor do direito à dignidade dos negros americanos. Munido de uma foice, ele maculava uma história de luta pacífica contra a tirania. Ao seu lado, vestindo uma camiseta branca com os dizeres "Abaixo a macacada", ninguém menos que o senhor Virgulino Ferreira da Silva, dito Lampião, bandido nordestino audacioso e averso as covardias praticadas pelos canalhas de farda. Munido de seu velho fuzil, era o único do grupo que portava arma de fogo. O Dr. Pallotta me auxiliou na tarefa de esconder minha pequena num canto escuro e supostamente protegido. E partimos para a batalha, com uma fúria espartana, acompanhados por um exército fabuloso, aterrorizando com gritos e machados erguidos toda aquela caterva, que nos fitou com indizível pavor...
Quando acordei, estava deitado, banhado em suor, no chão frio, áspero e fétido de uma cela pequena, com outros 9 detentos, os quais olharam para mim, rindo. Ainda acreditando estar dentro de um sonho, procurei com os olhos o Doutor e minha Evelyn, as únicas figuras que julguei poder encontrar ali. Obviamente, não havia sequer o menor sinal deles. Um dos prisioneiros acendeu um cigarro e disse, em tom de amizade e respeito, embora meio zombeteiramente: "Seu café da manhã, ladrão." (Na cadeia, ladrão significa irmão.) Dei uma tragada, aí um outro disse: "Depois de virar a Bahia de pernas pro ar, você ainda dorme, doutor Terrorista?!" Mal eles podiam imaginar que, em meses, aquela era a minha segunda noite de sono. A primeira, ocorreu no dia seguinte a minha prisão, em razão do estresse, da forte tensão, que antecedeu aquele ato insano. Olhei através das grades e vi outras grades trancadas com cadeados gigantescos e paredes de concreto, confinando dezenas de homens e mulheres em espaços tão pequenos e fétidos, que talvez fosse impossível a alguém que conheceu os campos de concentração e extermínio nazistas dos anos 40 conceber uma daquelas sucursais do inferno instalada num país ocidental em pleno ano de 2007.
No pátio, olhei para o único pedacinho de céu que nos restava, mas ele estava gradeado. Lembrei de Evelyn, lembrei de minha mãe, lembrei da moça a quem mantive refém. Lembrei-me da distância incomensurável que me separava naquele momento da Alemanha e da publicação de meu primeiro livro. Ali, em meio àquele público, Parvolândia Convulsionada e As Cartas Trocadas Entre Adolf Hitler, o Coroné e o Diabo, jamais seriam louvadas ou compreendidas... Ali, jamais meus livros voltariam a carregar meu nome e minha história através dos oceanos. Lembrei dos policiais que haviam me torturado e roubado, blindados por uma mídia ignominiosamente estatizada, provinciana e prostituída, constituída por homens e mulheres com deformações espirituais aberrativas e permanentes, causadas pelas amputações impostas pelo jornalixo ao qual estavam umbilicalmente vinculados. Homens e mulheres - pobres almas baianas! -, com suas bocas eternamente condenadas aos caprichos pervertidos dos torpes e desmesurados órgãos estatais da Bahia. Lembrei-me do gigantismo institucional covarde e desumano de nossa polícia corrupta. Lembrei-me que, preso, eu passava a pertencer, de forma literal, a inimigos mesquinhos e terríveis, contra os quais eu havia lutado de maneira louca e desesperada - sozinho. Sozinho, atirado à sanha assassina dos velhos e vis leões de nosso estado suinocrata. Sozinho, perdido no vale da sobra da morte, cercado por serpentes e leões... Um misto de pânico e dor quase me sufocaram naquele momento, mas respirei profundamente e não deixei que os outros prisioneiros percebessem duas lágrimas solitárias que se esboçaram nos cantos de meus olhos. Olhei para o tamanho daquela cela, um cubículo de 3m2, que mal dava para um animal, abrigando 9 seres humanos. Olhei para as grades espessas e enferrujadas, para as paredes sujas, para o piso áspero, úmido e fétido, onde eu havia dormido; olhei para o fosso imundo que diziam ser o nosso sanitário... Olhei para os outros detentos, muitos dos quais, por serem usuários de drogas pesadas, como álcool, cocaína e crack e em razão da pobre, da miserável ração que ingeriam diariamente, cortesia de nosso Estado Suinocrata Brasileiro, apresentavam sinais visíveis de subnutrição. Foi impossível não me recordar de nomes como Majdanek, Gueto de Varsóvia, Bergen-Belsen, Treblinka e Auschwitz... Campos de extermínio, Zyklon B, fornos crematórios, câmaras de gás. Minha Evelyn estava prestes a entrar numa delas...
Aquele foi apenas o meu quarto dia na prisão, uma versão brasileira fidedigna aos modelos nazistas. Olho pelo vidro ofuscado da janela do passado: vejo aquele inferno insuportável como algo distante e triste. Tento dizer a mim mesmo que aquilo tudo não existiu, ou que, se realmente existiu, tenha acontecido a um estranho... Mas a verdade é que, apesar da intensidade, aquele foi apenas um pequeno fragmento do pior pesadelo de toda a minha vida.
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| Foto: Com uma flor na mão, Ivo se ajoelha, desolado, diante do túmulo de Evelyn. Desenho do pintor brasileiro Marcelo C. Santos. |
Um dia, tive um sonho ruim... Sonhei que havia cometido um crime terrível.
Sonhei que havia acordado de manhã cedinho, depois de uma noite entrecortada por insônia e pesadelos, e fiquei quieto na cama, com a face sobre o travesseiro, a fitar a rigidez da parede. De meus olhos, saíam lágrimas desoladas. Neste sonho, minha sobrinha Evelyn, uma princesinha com 3 aninhos de idade, estava deitada sobre os lençóis brancos de seu berço. Eles estavam ensopados de sangue... Enquanto pequenas lágrimas de sangue, diminutas e quase tão imperceptíveis quanto o orvalho, brotavam de seus olhos, sua gengiva e nariz sangravam abundantemente. O denso suor que escorria pelo seu rosto, por entre microvalas formadas a cada contração de sua face pueril às aguilhoadas da agonia, se misturavam com as lágrimas de sangue antes mesmo de caírem no lençol. Da sala de estar, eu podia ouvir os gritos dolorosos de Sandra, sua jovem mãe, sendo consolada por pessoas que talvez fossem nossos familiares. Era distinguível também o lamento de Carmen, sua jovem avó, que, no entanto, parecia dissimular certa força e confiança - que não existiam.
Instintivamente eu percebi que algo sob os lençóis ensanguentados de nossa princesinha a estava mortificando. Me aproximei do berço e, com minhas próprias mãos, comecei a rasgar os lençóis sujos que envolviam o seu corpinho frágil e ensanguentado, o que os tornava aderentes e escorregadios a um só tempo. A muito custo, a livrei de todos aqueles lençóis e descobri o que tanto a torturava: seu tórax estava envolvido por três voltas de um arame farpado que parecia estar ali como por encanto... Quanto mais ela tentava respirar, mais as garras de metal penetravam em sua carne. Desesperado, cortei minhas próprias mãos nas farpas afiadas do arame, na tentativa desesperada de livrá-la daquele mal. Meu sangue e meu desespero se amalgamaram com o sangue e o desespero de minha princesinha. Fechei os olhos e desejei com toda a força, fé e sinceridade a sua cura. Quando os abri, ela estava em meus braços, envolta num novo lençol branco levemente manchado de sangue, mas o lugar já não era o mesmo. Estávamos parados diante dum imenso prédio de vidro transparente, de modo que eu conseguia ver cada detalhe do tipo de atividade que era realizada ali. Era um belo hospital. Foi um sonho tão real, que até hoje, quando fecho os olhos no silêncio escuro da noite, posso sentir os ferimentos das farpas que a oprimiam, rasgando as carnes de meu peito, de meus braços, extenuados pelo desespero, pelo cansaço.
Este soberbo colosso de vidro transparente era o conceituado hospital Sírio-Libanês, de São Paulo, uma das maiores referências mundiais em tratamento oncológico. Nele, as pessoas ricas conseguem a cura. Lá, o câncer não tem muitas chances. Em meu íntimo, eu sabia disso. Quando estive em São Paulo, morei na rua Peixoto Gomide, a poucos metros das ruas Barata Ribeiro e Adma Jafet. De minha rua, eu podia ver o belo prédio do Sírio-Libanês, em sua imponência arquitetônica. Artistas e políticos e empresários entravam e saíam de lá quase sempre. Para os porteiros e guardadores de carro, era uma grande festa observar o tráfego de famosos por aquelas redondezas. Lá, os poderosos matavam ou anulavam o câncer por anos, e continuavam as suas vidas...
Mesmo quando ainda me encontrava prisioneiro daquele sonho ruim, daquele pesadelo, descobri o significado daquele arame farpado.
Lembrei-me da vez em que fui sequestrado, roubado e covardemente torturado por policiais militares, após mandar pra lona, com um belo cruzado de direita no queixo, o policial que havia me dado um tapa no rosto, numa destas rotineiras abordagens criminosas de nossa polícia covarde e corrupta. Eles me algemaram, puseram um saco preto em minha cabeça e me conduziram para um lugar ermo, onde amarraram um arame farpado em meu tórax, com o intuito covarde de dificulta-me a respiração. Toda vez em que eu tentava respirar profundamente, as farpas penetravam em minhas carnes, tornando o ato de respirar insuportável. Durante mais ou menos 40, 50 minutos, eles me queimaram com facas e cigarros. Foram os minutos mais longos de minha vida. Me roubaram uma obra de arte, em que eu havia investido um dinheiro arduamente conquistado, após noites em claro, corrigindo, de maneira intuitiva, as imperfeições estruturais de uma obra ficcional de uma cliente italiana. Me levaram ainda 1200 euros, alguns pertences e o principal: a minha oportunidade de estudar na Europa, por meio de uma bolsa de estudos que ganhei, através de meus méritos literários. Ou seja: eles me roubaram a oportunidade de dar uma vida melhor a minha família. Um mês após a covarde tortura seguida de roubo, descobrimos que Evelyn estava com leucemia. Eles tiraram de mim a oportunidade de dar um tratamento digno a minha princesinha.
Então, aquele arame farpado que tão cruelmente dilacerava o corpinho de minha princesinha significava leucemia, tortura, injustiça, abandono. Foi aquela uma forma metafórica que meu inconsciente havia encontrado para expressar, medir a dor que oprimia o nosso bebê.
Mantendo o corpinho de Evelyn junto ao meu com o braço esquerdo, com o direito comecei a socar a parede de vidro transparente do hospital, desesperada e alucinadamente. Mesmo em minha alucinação onírica, era possível perceber que minha tarefa era quase impossível, pois o vidro, apesar de transparente, era blindado, intransponível. Estas palavras soavam como aguilhoadas em minha mente. Através da limpidez daquele vidro, eu podia ver médicos com seus semblantes ponderados e imponentes, movendo-se pelos corredores labinríticos do hospital, envergando seus jalecos impecavelmente brancos, imaculados, contrastando apenas com o escuro do estetoscópio que traziam a tiracolo. Eles conversavam e se dirigiam para sofisticados quartos individuais, onde pacientes importantes repousavam tranquilamente em leitos limpos e aconchegantes.
Em meu desespero, eu socava com toda a minha força aquele maldito vidro, mas ele sequer arranhava. Eu gritava, pedia socorro, agitava meu punho ferido no ar, mas estávamos invisíveis, eu e meu neném. É incrível como as coisas acontecem nos sonhos. Num momento, estávamos completamente a sós, mas de uma hora para outra, centenas de doentes com seus acompanhantes, nas mesmas lamentáveis condições que as nossas, apareceram ao nosso redor, do nada. Éramos todos negros ou mestiços, maltrapilhos e sujos. Brasileiramente subumanos. Insígnias bordadas em pedaços de couro com a estrela amarela de Davi haviam sido costuradas na altura de nossos peitos, só que na carne. Os pijamas listrados que cobriam nossos corpos subnutridos tinham as cores da moda vigente: o verde e o amarelo de nosso amado Brasil. Policiais envergando fardas da Gestapo, SS e policias Civil e Militar brasileira nos empurravam com violência e desprezo para o interior de vagões de um trem superlotado, com o auxílio de monstruosos cães de três cabeças, tão horrendos e bestiais quanto o cérbero que Dante concebeu para guardar os seus condenados infernais. Estas feras malignas dilaceravam impiedosamente cada doente ou acompanhante que caia de fadiga, para a alegria dos policiais, muitos dos quais os fustigavam com as pontas dos seus fuzís toda vez que deixávamos alguma das peças que compunham um kit injurioso que nos obrigavam a carregar por pura zombaria, composto por uma bola de futebol, um pandeiro verde-amarelo, uma bandeira brasileira e um espesso livro, velho e enlameado, no qual se encontravam os cânones de nossa Constituição, misturados aos das leis de Nuremberg. Em minha mente perturbada, uma palavra soou metálica, terrificante: Auschwitz. Um pavor inenarrável percorreu cada fibra de meu corpo.
Desesperado, com minha pequena nos braços, eu sai empurrando policiais, doentes, acompanhantes e chutando o dorso dos cães assassinos que se antepunham à nossa frente.
Em minha fuga, eu acabara invadindo uma clínica medica, num prédio bem menor e menos garboso que o do hospital blindado. Lá, eu atacava um segurança e o desarmava, com minhas próprias mãos. Colocava Evelyn numa maca e nos trancávamos num banheiro, fazendo refém uma jovem enfermeira. Ela gritava desesperada, pedindo para que eu não a machucasse. Uma parte de mim queria imediatamente libertá-la, desculpando-se por tamanha atrocidade, mas a outra, relutante, dizia que apenas através daquilo eu poderia conseguir a cura para a criança que eu tinha agonizante nos meus braços. Eu sabia que não sairia dali vivo, mas pelo menos daria uma chance de cura para o nosso bebê. Lá fora, minha vida pertencia aos criminosos covardes do Reich brasileiro desde o dia em que fui sequestrado, roubado e covardemente torturado por policiais militares. Para minha família continuar vivendo, para Evelyn continuar sonhando com a possibilidade de uma vida sem sofrimento, sem dor, eu tinha que morrer... E, como um homem sem alternativas, tomei para mim o meu cálice. Não havia como passar adiante. Carregando uma cruz pesada de mais, subi um morro ígreme de mais...
De lugar nenhum, Ania, a mulher a quem mais amei nesta vida e que também havia padecido os horrores da leucemia, falecendo pouco mais de um ano após o diagnóstico, aos 19 anos de idade, apareceu com um cobertor, com o qual enrolava a mim e a minha pequena, livrando-nos do frio. Com o auxílio de seu delicado dedo polegar, ela secou as lágrimas de sangue que corriam pelo meu rosto. Aquecida em meus braços pelo cobertor trazido por um anjo enviado pelos céus, Evelyn unia suas mãozinhas pueris e começava a balbuciar uma prece... Uma das coisas que mais me mortificava era ver Evelyn, um bebê com apenas 2 anos de idade, unindo suas mãozinhas para implorar a Deus por uma cura que nunca viria...
De uma hora para outra, eu estava com meu bebê, nos braços, num prédio escuro, com apenas uma porta iluminada, ao fim de um longo corredor. Eu segurava minha pequena nos braços, apesar do cansaço e da desolação. O lugar iluminado se tratava de uma imensa e luxuosa sala de reuniões. Havia uma gigantesca mesa retangular postada bem no centro desta sala, tão comprida que os homens e mulheres que se encontravam sentados na extremidade oposta precisavam gritar, a plenos pulmões, para serem ouvidos por seus oponentes. Esta mesa era ocupada, em toda a sua extensão, por políticos importantes e soberbos, de todas as partes do mundo, quase sempre escoltados por suas esposas afetadas e sorridentes. Eles comiam, sorriam, bebiam champagne e vinhos caros. A mesa era tão grande, que dançarinas, dançarinos, cantoras e cantores brasileiros de Tum-tum-tum-tá-tá-tá (este ritmo ludico-sensual-filosófico nascido, fortalecido e apregoado na terrinha), acompanhados por uma magnífica e altiva banda de percussão, sambavam rebolavam e cantavam, exibindo suas belas formas aos glutões por entre as travessas de porcos, peixes, perus, pernis assados, bandejas enfeitadas por frutas exóticas, barris de chop e tigelas de ponche. As vestes destes fabulosos artistas do barulho e do movimento eram tão sensualmente peculiares, que, a cada saracoteio, se podia notar por baixo de saiotes e camisas de abadás quase invisíveis, os orifícis por onde, de ordinário, os mamíferos costumam expeliam os seus excrementos. Para a alegria da assembléia, muitos destes artistas rebolavam ensandecidamente sobre cada garrafa com que cruzavam ao longo do delicioso percurso sobre a gigantesca mesa do festim: eles viravam de costas para os convivas, colocavam as mãos nos joelhos e subiam e desciam sobre as bocas das garrafas, simulando que se deixariam sodomizar pelas mesmas. Sentados no chão, aos pés das cadeiras ocupadas por políticos militares, vi alguns repórteres, apresentadoras e apresentadores da TV baiana, mais algumas dezenas dos melhores jornalistas de nosso Brasil, tão comportados quanto cães à espera das migalhas lançadas por seus donos. Muitos deles chegavam mesmo a roçar as cabeças entre as pernas dos convivas, em sinal incontestável de submissão canina. Eles só ousavam sair desta posição quando algum dos convidados deixava, por negligência ou embriaguez, cair no chão ossos de peru ou espinhas de peixe, os quais eram encarniçadamente disputados por sujeitos vestidos de togas e alguns ilustres representantes de nosso Congresso Nacional. Uma fúria inexprimível se apossou de mim, no momento em que passei a distinguir as fisionomias daqueles torpes convivas. Na cabeceira da mesa, envergando seu uniforme militar, estava sentado ninguém menos que Adolf Hitler, secundado por sua senhora, Eva Braun. Logo ao lado desta ilustre senhora, postavam-se os senhores Alfred Rosemberg, Joachin von Ribbentrop, G.W. Bush, Toni Blair e Ariel Sharon. Ao lado deste último, G.W. Bush pai dialogava, sorridente, com Saddam Hussein. Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Antônio Carlos Magalhães, José Sarney, Lula, Fernando Henrique Cardoso, Collor de Mello, Fritz Sauckel, Hermann Goring, Heinrich Himmler, Artur Leibhenschel, Richard Baer, Rudolf Ross e Ruldof Hess fumavam charutos cubanos e gracejavam entre si, enquanto se entretinham com o jogo de cartas. Postado de pé, logo atrás do sr. Hibbentrop, com ar embirrado, Josep Stalin parecia desprezar o elevado números de cavalheiros alemães e brasileiros no festim. Queixava-se disso com seu escudeiro Molotov, que também parecia esnobar a superioridade numérica dos arianos. Do outro lado da mesa, Roberto Marinho travava discussões acaloradas com Josef Goebbels acerca da mídia moderna. Quase colados a esses cavalheiros, compartilhando do mesmo entusiasmo, embora explorando uma temática condizente com suas ocupações, os responsáveis pala suspenção do contrato Hospital Português-SESAB, o dr. Jorge Solla, secretário de saúde da Bahia, o dr. Eraldo Salustiano de Moura, coordenador da Central Baiana de Transplantes, o dr Marco Aurélio Salvino, coordenador do Centro de Transplante de Medula Óssea da Bahia, escudado pelo ministro da saúde, Humberto Costa, discutiam com os drs. arianos Josef Mengele, Hilario Hubrichzeinen, Carl Clauberg, Eduard Wirths e August Hirt sobre as novas diretrizes para a saúde internacional. Ao lado do senhor Hess, os maiores porcos de nossa história: os militares Castelo Branco, Médicci, Geisel e Figueiredo. Benito Mussolini, conversava com seus amigos, compatriotas e partidários do fascismo, o rei Vítor Emanuel III e o santo papa Pio XI. Sob a santa benção do papa, Adolf Eichmann e nosso governador Wagner assinavam, felizes e imponentes, sentenças desastrosas para a humanidade: o primeiro, a autorização para o transporte da primeira leva de prisioneiros para Auschwitz, o segundo, a suspenção do contrato do governo do estado da Bahia com o Hospital Português, única instituição no estado habilitada a realizar transplantes de medula óssea, e, consequentemente, única oportunidade para os baianos segregados pela miséria de continuar sonhando com a cura dos cânceres passíveis de transplante de medula. Após entregar a caneta ao doutor Eichmann, Jaques Wagner o abraçou calorosamente, e todos os convivas estouraram champanhes e brindaram às perspectivas promissivas que se esboçavam para seus respectivos partidos. Ao meu lado, como que surgido dum mundo encantado, um triste homem sem rosto (Eu o conhecia apenas de nome e fama, nunca tinha visto o seu rosto impresso nos jornais. Meses antes de ser preso, eu havia sido avisado, por fontes palacianas, das pretensões assassinas de nossos governantes em relação a anulação do contrato, bem como da indignação do Dr. Pallotta com aquela brutalidade bestial), trajando seu jaleco de doutor, lamentava aqueles acontecimentos. Seu nome era Ronald Pallotta, sua função: coordenar do único centro de transplante de medula óssea da Bahia. Chorando muito, ele tirou do interior de seu jaleco dois desmesurados machados, presenteando-me com um deles. Nos olhamos cara a cara, como homens de verdade costumam fazer, e, apesar da informidade de seu rosto, vi olhos chamejantes, prontos para a guerra. Da mesma maneira fantástica, apareceram oito novas figuras, armadas de armas igualmente primitivas, mas cheias da coragem e honra que as caracterizaram em vida, para engrossar a nossa hoste: o valente judeu responsável pelo levante do Gueto de Varsóvia, Mordechai Anielewicz, o nobre guerreiro argentino Ernesto Guevara, inimigo contumaz da opressão e os corajosos irmãos Bielski, responsáveis pela salvação da vida de centenas de judeus durante o reinado bestial do nazismo. Completavam o time mais quatro ilustres figuras da história da humanidade: o nobre negro alagoano Zumbi dos Palmares, odiado pela elite brasileira por ser responsável pela defesa de mais de 30 mil ex-escravos e aniquilador de inúmeras expedições militares assassinas, o não menos ilustre João Cândido Felisberto, cognominado o Almirante Negro, líder do levante que infligiu vergonhosa derrota à corrupta e desumana república brasileira de 1910, e o igualmente ilustre negro norte-americano Martin Luther King, grande defensor do direito à dignidade dos negros americanos. Munido de uma foice, ele maculava uma história de luta pacífica contra a tirania. Ao seu lado, vestindo uma camiseta branca com os dizeres "Abaixo a macacada", ninguém menos que o senhor Virgulino Ferreira da Silva, dito Lampião, bandido nordestino audacioso e averso as covardias praticadas pelos canalhas de farda. Munido de seu velho fuzil, era o único do grupo que portava arma de fogo. O Dr. Pallotta me auxiliou na tarefa de esconder minha pequena num canto escuro e supostamente protegido. E partimos para a batalha, com uma fúria espartana, acompanhados por um exército fabuloso, aterrorizando com gritos e machados erguidos toda aquela caterva, que nos fitou com indizível pavor...
Quando acordei, estava deitado, banhado em suor, no chão frio, áspero e fétido de uma cela pequena, com outros 9 detentos, os quais olharam para mim, rindo. Ainda acreditando estar dentro de um sonho, procurei com os olhos o Doutor e minha Evelyn, as únicas figuras que julguei poder encontrar ali. Obviamente, não havia sequer o menor sinal deles. Um dos prisioneiros acendeu um cigarro e disse, em tom de amizade e respeito, embora meio zombeteiramente: "Seu café da manhã, ladrão." (Na cadeia, ladrão significa irmão.) Dei uma tragada, aí um outro disse: "Depois de virar a Bahia de pernas pro ar, você ainda dorme, doutor Terrorista?!" Mal eles podiam imaginar que, em meses, aquela era a minha segunda noite de sono. A primeira, ocorreu no dia seguinte a minha prisão, em razão do estresse, da forte tensão, que antecedeu aquele ato insano. Olhei através das grades e vi outras grades trancadas com cadeados gigantescos e paredes de concreto, confinando dezenas de homens e mulheres em espaços tão pequenos e fétidos, que talvez fosse impossível a alguém que conheceu os campos de concentração e extermínio nazistas dos anos 40 conceber uma daquelas sucursais do inferno instalada num país ocidental em pleno ano de 2007.
No pátio, olhei para o único pedacinho de céu que nos restava, mas ele estava gradeado. Lembrei de Evelyn, lembrei de minha mãe, lembrei da moça a quem mantive refém. Lembrei-me da distância incomensurável que me separava naquele momento da Alemanha e da publicação de meu primeiro livro. Ali, em meio àquele público, Parvolândia Convulsionada e As Cartas Trocadas Entre Adolf Hitler, o Coroné e o Diabo, jamais seriam louvadas ou compreendidas... Ali, jamais meus livros voltariam a carregar meu nome e minha história através dos oceanos. Lembrei dos policiais que haviam me torturado e roubado, blindados por uma mídia ignominiosamente estatizada, provinciana e prostituída, constituída por homens e mulheres com deformações espirituais aberrativas e permanentes, causadas pelas amputações impostas pelo jornalixo ao qual estavam umbilicalmente vinculados. Homens e mulheres - pobres almas baianas! -, com suas bocas eternamente condenadas aos caprichos pervertidos dos torpes e desmesurados órgãos estatais da Bahia. Lembrei-me do gigantismo institucional covarde e desumano de nossa polícia corrupta. Lembrei-me que, preso, eu passava a pertencer, de forma literal, a inimigos mesquinhos e terríveis, contra os quais eu havia lutado de maneira louca e desesperada - sozinho. Sozinho, atirado à sanha assassina dos velhos e vis leões de nosso estado suinocrata. Sozinho, perdido no vale da sobra da morte, cercado por serpentes e leões... Um misto de pânico e dor quase me sufocaram naquele momento, mas respirei profundamente e não deixei que os outros prisioneiros percebessem duas lágrimas solitárias que se esboçaram nos cantos de meus olhos. Olhei para o tamanho daquela cela, um cubículo de 3m2, que mal dava para um animal, abrigando 9 seres humanos. Olhei para as grades espessas e enferrujadas, para as paredes sujas, para o piso áspero, úmido e fétido, onde eu havia dormido; olhei para o fosso imundo que diziam ser o nosso sanitário... Olhei para os outros detentos, muitos dos quais, por serem usuários de drogas pesadas, como álcool, cocaína e crack e em razão da pobre, da miserável ração que ingeriam diariamente, cortesia de nosso Estado Suinocrata Brasileiro, apresentavam sinais visíveis de subnutrição. Foi impossível não me recordar de nomes como Majdanek, Gueto de Varsóvia, Bergen-Belsen, Treblinka e Auschwitz... Campos de extermínio, Zyklon B, fornos crematórios, câmaras de gás. Minha Evelyn estava prestes a entrar numa delas...
Aquele foi apenas o meu quarto dia na prisão, uma versão brasileira fidedigna aos modelos nazistas. Olho pelo vidro ofuscado da janela do passado: vejo aquele inferno insuportável como algo distante e triste. Tento dizer a mim mesmo que aquilo tudo não existiu, ou que, se realmente existiu, tenha acontecido a um estranho... Mas a verdade é que, apesar da intensidade, aquele foi apenas um pequeno fragmento do pior pesadelo de toda a minha vida.
Giovanna Provenzano e Barbara Luchese.
Fonte da matéria: Bergisch GladbachOnLine-Deutschland. 14/05/2009
(Bergisch Gladbach OnLine-Alemanha).
Fonte do recorte: jornal Tribuna da Bahia.
No dia 20 de maio de 2006 um jovem guerreiro que estava prestes a entrar na Europa como uma das maiores revelações da Literatura Universal teve o seu sonho adiado... ou pior... ele teve o seu mundo destruído, reduzido a escombros, pelo terrorismo deliberado e sistematicamente aplicado pelo Estado Suinocrata Brasileiro. Com o intuito de esconder a verdade do grande público, a policia despistou os jornalistas (vede giornale insù), classificando Ivo Sotn como um garoto de programa de luxo:
"Que culpa tenho se sou homem o suficiente para atrair uma bela aristocrática? Que culpa tenho se não sou torpe o suficiente para ser um policial: burro, vulgar, covarde, desprezado e rejeitado pelas mulheres? Querem depreciar a minha imagem, com o intuito torpe de violar meus direitos. Asseguro-lhes, srs. porcos covardes e assassinos da polícia baiana, que levarei às últimas consequências o meu brado por justiça. Vocês mexeram com o homem errado."
Posto à margem pela justiça corrupta e corporativista do Brasil, Ivo Sotn (Ivonilson Santos Sousa) se lança numa louca tentativa de protejer sua família de uma chacina e recuperar seus bens roubados. Sua tática foi inteligente, ousada e insana ao mesmo tempo, pois consistiu em usar a mídia estatizada do estado da Bahia contra criminosos blindados pela própria mídia e por uma jurisdição hitleriana, sujeitos habituados a trucidar todos aqueles que permanecem em silêncio. Seu prejuízo financeiro consistiu em mais de 20 mil euros: 1200 euros, que lhe foram enviados da Alemanha pelos empresários que lhe concederam a bolsa de estudos e - pasmem!- um manuscrito de A Divina Comédia, obra de nosso poeta maior, Dante Alighieri (1265-1321), um trabalho primoroso da imprensa artesanal italiana, confeccionado no ano de 1869, por tanto, uma obra anterior à Unificação Italiana.
Ao contrário do que disseram os jornais da época - eliminada a hipotese de roubo, os jornais brasileiros cogitaram na possibilidade de que a obra fora parar nas mãos de Sotn como um presente de uma amante rica - a obra fora adquirida pelo autor pelo preço de € 18.000, no ano de 2004, um investimento de um jovem autor talentoso, após ter ganho € 20.000 (20 mil euros) por conta de uma supervisão artistica em num trabalho literário ficcional.
Jornalixo e Suinocracia Brasileira
| Foto: Bergisch GladBach Online |
| Por Giovanna Provenzano.
Costiera Amalfitana - Italy.
No dia 23 de maio de 2006 um jovem guerreiro que estava prestes a entrar na Europa como uma das maiores revelações da Literatura Universal teve o seu sonho adiado... ou pior... ele teve o seu mundo destruído, reduzido a escombros, pelo terrorismo deliberado e sistematicamente aplicado pelo Estado Suinocrata Brasileiro. Recorte acima: com o intuito de esconder a verdade, a policia despistou os jornalistas, classificando Ivo Sotn como um garoto de programa de luxo:
"Que culpa tenho se sou homem o suficiente para atrair uma bela aristocrática? Que culpa tenho se não sou torpe o suficiente para ser um policial: burro, vulgar, covarde, desprezado e rejeitado pelas mulheres? Querem depreciar a minha imagem, com o intuito torpe de violar meus direitos. Asseguro-lhes, srs. porcos covardes e assassinos da polícia baiana, que levarei às últimas consequências o meu brado por justiça. Vocês mexeram com o homem errado." |
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